segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A MORTE É UMA PASSAGEM PARA ONDE?



No dia dois de novembro se comemora o Dia de Finados, ou o Dia dos Mortos. É uma data em que relembramos os amigos e parentes que já se foram, e que deixaram saudades. E a saudade nos faz reviver sentimentos que pensávamos ter esquecido, mas que na verdade estavam mascarados, escondidos atrás de posturas diversas, como indiferença, esquecimento e agitação, que representam, por sua vez, fugas psicológicas para não enfrentarmos o problema real, que é ausência física de quem temos muita afeição.

Mas o dia de finados nos traz muito mais do que sentimentos saudosos. Faz-nos refletir (ou pelo menos deveria fazer) sobre este fato natural, mas que toma feições macabras ou misteriosas para algumas pessoas, e um medo desesperado por parte de outras.

Mesmo para muito de nós, espíritas, que temos conhecimento de muitos fatos acerca da vida espiritual, e que sabemos que a vida continua, a morte ainda é uma incógnita, que pode nos tirar tudo aquilo que amamos. E a pergunta vem, naturalmente: afinal, a morte é uma passagem para onde?

Esta é a pergunta que tentaremos responder através deste estudo.

O que é a morte

“Morrer é somente mudar de estado.” (Joanna de Angelis)

Nenhum de nós foi criado para a imortalidade biológica. Todos os seres vivos, sem exceção, têm seus ciclos naturais bem definidos, ou seja, nasce, cresce e morre. Não há como fugir deste fatalismo inevitável. Isto foi claramente explicado pelos Espíritos, na resposta da pergunta 728 do LE: “É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar, porque o que chamais destruição não é senão uma transformação que tem por objetivo a renovação e melhoramento dos seres vivos.”

Tecnicamente, a morte é a cessação da vida, instante em que todas as células e órgãos do nosso corpo encerram suas atividades, como operários que encerram o expediente de trabalho, parando a fábrica. Porém, como os operários continuam existindo após a parada da fábrica, somos levados a uma conclusão lógica e natural, de que existe algo mais além do trabalho. Assim é a nossa vida biológica. Um dia, todos os nossos órgãos irão se desligar, alguns antes, outros depois, ou todos juntos, dependendo da situação.

O desligamento do nosso espírito ocorre gradualmente, iniciando pelas extremidades, uma vez que o coração, já fraco, não consegue suprir a circulação sanguínea adequadamente. Os técnicos do plano espiritual que nos auxiliam neste processo concentram, pouco a pouco, a energia vital na região do coração, até romper-se definitivamente o laço semi-material que nos liga ao plano físico, quando então partimos para outras paragens.

Este desligamento é mais ou menos rápido, mais ou menos doloroso, de acordo com o tipo de vida que cada ser escolheu para si. Naturalmente, em caso de acidentes ou mortes violentas, este processo se completa após o instante da morte. No livro Quem tem medo da morte?, Richard Simonetti esclarece que morrer é diferente de desencarnar. A morte ocorre quando o coração para de funcionar. Já o desencarne, que é o desligamento em si, pode demorar dias, semanas ou até meses ou anos, dependendo do apego material que cada indivíduo tem pela vida.

Os homens que souberam viver a vida e as oportunidades, sentir-se-ão tranqüilos, mas os que perderam o tempo precioso, em processos diversos de desbaratamento de energias, não sabem o que pode lhes acontecer. E uma aflição naturalmente lhes domina o espírito. Diz Leon Denis que “a hora da separação é cruel para o espírito que só acredita no nada (...) Pacífica, resignada, alegre mesmo, é a morte do justo (...)”.

A morte física chegará a todos, sem distinção. É parte de um processo bem elaborado de evolução, que nos leva sempre para mais próximos de Deus. Portanto, é importante saber que continuaremos existindo do mesmo modo, mas em outro lugar. Desta forma, é inútil a lamentação da perda física, uma vez que após a cessação da vida, o corpo físico se decompõe, retornando à natureza que processa a reciclagem dos componentes orgânicos.

O que a morte representa

Sendo a morte apenas uma passagem, uma mudança de um estado para outro, importa sabermos que a nossa consciência estará intacta quando o processo de desencarne se concluir.

Deixamos o corpo físico, que não nos servirá mais, e gradualmente retornaremos às atividades para as quais temos maior interesse ou afeição. A morte então representa a liberdade do espírito, que livre do fardo material, tem rompidos os elos que o prendiam a uma existência muitas vezes penosa.

É o momento de se fazer o balanço dos atos que praticamos, e confrontarmos com os erros que cometemos. Assim como o instante da morte, esta etapa pode ser mais ou menos longa, mais ou menos dolorosa.

Como diz Leon Denis, “Ele (o espírito) é o seu próprio juiz. Caído o vestuário de carne, a luz penetra-o e sua alma aparece nua, deixando ver o quadro vivo dos seus atos, de suas vontades, de seus desejos.”

Tudo o que fizemos durante a existência volta à nossa recordação, e é justamente esta lembrança que fará feliz ou triste o momento de avaliação, pois as coisas boas que fazemos proporcionam uma agradável sensação, enquanto que as coisas ruins trazem dor e desconforto.

De qualquer maneira, é uma situação passageira, já que a Providência Divina nos fornece sempre novas oportunidades de recomeçar, sem nos deixar vivendo eternamente uma punição que nossa própria consciência delimita.

Muitos de nós nos afligimos neste instante por sabermos que o passado não mais volta. Mas, como dizia Chico Xavier, “embora não possamos fazer um novo final, sempre poderemos escrever um novo começo”.

Visões da Morte

A morte é justamente a oportunidade que temos de fazer um novo começo, renovando o nosso espírito, modificando nosso pensamento e nossos conceitos. A morte em si não faz isto sozinha, mas é uma porta que se abre para isto, desde que saibamos aproveitar.

O Espiritismo é uma doutrina que nos dá uma visão otimista da morte, comparada a outras formas de ver esse processo, e pode nos ajudar e muito nesta passagem.

Jung, um dos maiores estudiosos da psicologia de nossa história, acreditava na morte “como parte do processo de individuação, através do qual cada ser tem de trilhar um caminho para realizar o sentido de sua existência”.

De certa forma, a visão do grande psicólogo vai de encontro à doutrina espírita, que prega o livre-arbítrio , onde cada um escolhe o seu caminho e a forma de encarar a morte, bem como as conseqüências dos atos que realizou em suas vidas passadas.

Mas existem outras formas de ver este processo.

Meister Eckhart diz que “morrer significa deixar de ser tudo o que é transitório; é uma renúncia que se expressa na separação total no silêncio e na tranqüilidade da alma!”.

Já Jean-Yves Leloup estabeleceu quatro visões diferentes do ser humano, que trazem maneiras diferentes de lidar com as questões da morte.

- O homem como matéria: não existe alma ou espírito; próprio de tradições atéias; existe uma negação da morte e tentativa de fugir da dor;
- Visão bidimensional: animado pela alma, ou psique, a alma é imortal, enquanto o corpo é desprezado; o sofrimento e a morte são passageiros;
- Visão tridimensional: onde o homem é formado de corpo, alma e espírito, e a tendência é privilegiar o espírito, em detrimento à afeição (psique) e corporal (somática); a morte é uma ilusão;
- A quarta visão liga corpo, alma e espírito através do pneuma, do sopro que ilumina essa composição; a morte então é a libertação do sofrimento; é uma benção, que permitirá o despertar do ser humano para a verdadeira realidade.

As ciências, através de estudos e pesquisas, estão se aproximando da visão espírita da morte, na medida em que estão abandonando o conceito do nada após o desenlace do espírito, e provas técnicas existem que comprovam estes fatos.

O conhecimento e a aceitação da imortalidade da alma, ou espírito, faz do Espiritismo uma fonte segura a nos infundir esperança em uma vida melhor, apesar dos nossos erros, conseqüência direta da fé raciocinada que traz, pela razão e análise coerente dos fenômenos ligados à morte.

Devido a isto, muitos consideram os espíritas frios no trato com a morte, o que não é verdade. Lembrando Jesus, que diz que “conheceremos a verdade, e ela nos libertará”, podemos dizer que estamos, através do estudo, nos libertando do medo da morte, e abrindo um novo horizonte que aponta para a felicidade, não mais para o sofrimento sem fim, se erramos, ou para a contemplação eterna, se formos impecáveis.

Os extremos são sempre de difícil aceitação, e a Doutrina Espírita procura trazer à luz do equilíbrio esta discussão acerca do assunto. Quanto mais nos dedicarmos ao conhecimento, menos pavor a morte nos provocará, e teremos sempre opções para alterarmos nosso caminho, corrigindo uma rota que estava nos levando aos erros.

“A questão da morte nos coloca diante da profunda insegurança que temos em relação à vida”, afirma Vera Lúcia Franco, em reportagem na Revista Planeta, de outubro de 2002.

Preparando-se para a morte

Segundo Kardec, “para libertar-se do temor da morte, é mister poder encará-la sob o seu verdadeiro ponto de vista, isto é, ter penetrado pelo pensamento no mundo espiritual, fazendo dele uma idéia tão exata quanto possível, o que denota da parte do espírito encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para desprender-se da matéria”.

Ou seja, é necessária uma preparação prévia para a morte, uma vez que não poderemos fugir deste momento fatal. O desapego à vida material, em todos os seus aspectos, é de fundamental importância, uma vez que não poderemos levar nada material para o plano espiritual para onde retornaremos. Mas o que nos acompanha são os valores, os conhecimentos e os sentimentos reais que cultivarmos em vida.

A negação e a fuga escapista através da “curtição desenfreada”, através do pensamento de que “vivemos apenas uma vez” apenas nos traz ainda maiores dores, dificultando o nosso desligamento.

Devemos nos preparar sempre para a nossa passagem, e também para a passagem dos entes queridos, para não aumentarmos ainda mais a nossa dor. E ensinar aos nossos parentes e amigos que a morte não existe, e que não destruirá o sentimento que temos por eles.

Sabemos que a morte e o renascimento em outro corpo aprofundam cada vez mais os verdadeiros laços de amor que nos prende aos queridos familiares.

A educação é a chave que abrirá esta misteriosa porta em que todos nos encontraremos muitas vezes ainda.

A morte é uma passagem para onde?

Concluímos então, sabendo que não temos um lugar definido para onde vamos. Iremos, sim, para onde levar o nosso coração.

Lembremos de Joanna de Angelis, que nos diz: “Mortos estão, em realidade, aqueles que têm fechados os olhos para a vida e jazem, anestesiados na ilusão, deambulando, em hipnose inditosa, entre viciações e engodos”.

Temos sempre, aqui e em outros planos, vida em plenitude, desde que saibamos conduzir esta jornada que Deus nos concede para nosso próprio bem.

Não desperdicemos as oportunidades de aprendizado, que melhoram a nossa vida, a mente e o nosso coração.

Vamos começar, desde já, a desatar os nós que nos prendem ao sofrimento.

Por Fernando Luiz Petrosky

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